A canetada que alimenta o cabresto – Jornal O Democrata

A escala 6×1 sempre foi um escárnio. Seis dias de trabalho para um de descanso, como se a vida do trabalhador se resumisse a bater ponto, pagar conta e dormir para começar tudo de novo. Acabar com essa aberração é justo. O que não é justo é transformar uma reivindicação legítima em espetáculo eleitoral, com direito a discurso de estadista, votação relâmpago e fotografia para a campanha. No Brasil, até o descanso precisa de data marcada no calendário político.

O Senado aprovou, por 75 votos a 1, a proposta que reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem corte salarial. Lula comemorou a conquista histórica. Flávio Bolsonaro, que criticava a proposta, votou a favor. Davi Alcolumbre acelerou a tramitação. A promulgação foi anunciada para a semana seguinte, a poucos dias do segundo turno. De repente, todo mundo descobriu que o trabalhador merece viver. Que coincidência extraordinária.

Não se discute o mérito de trabalhar menos e viver mais. Discute-se a velha mania brasileira de vender canetada como solução para problemas que exigem muito mais do que tinta e assinatura. Reduzir a jornada mexe com custos, contratações e organização das empresas. Quem vai absorver essa conta? Como ficam os pequenos negócios? Haverá ganho de produtividade ou repasse de custos? São perguntas incômodas, mas necessárias. Só não são boas para o palanque. No palanque, basta anunciar o benefício. A conta fica para depois, de preferência quando a eleição já tiver acabado.

E não para por aí. Na mesma cartilha está a velha política do dinheiro distribuído na hora certa, acompanhado da explicação oficial de que tudo é legal, necessário e socialmente justo. O Bolsa Família cumpre um papel importante para milhões de brasileiros. Ninguém em sã consciência pode condenar quem precisa do benefício ou quem comemora alguns reais a mais no orçamento. A crítica é a outra: um governo que transforma assistência em vitrine eleitoral não está combatendo a dependência. Está aprendendo a administrá-la.

É o cabresto versão moderna. Não precisa de corda, basta a falta de alternativa. O trabalhador que mal consegue pagar as contas não vai recusar uma folga a mais. A família que depende de um benefício não vai dispensar o dinheiro. E ninguém deveria ser obrigado a fazê-lo para provar independência política. O problema é o governante que olha para essa necessidade e enxerga uma oportunidade de conquistar votos. Para ele, o cidadão deixa de ser alguém a quem o Estado deve garantir condições de vida melhores e passa a ser alguém que precisa se lembrar de quem lhe deu alguma coisa.

Direito não é favor. Benefício social não é compra de voto. E o eleitor não deve gratidão política por receber aquilo que a lei lhe assegura. Mas há uma diferença enorme entre construir um país em que as pessoas tenham oportunidades e administrar um país em que milhões continuem precisando da próxima ajuda para fechar o mês. O primeiro caminho exige crescimento, educação, produtividade e emprego. O segundo rende anúncios, aplausos e votos. Adivinhe qual deles costuma ser mais conveniente em ano eleitoral.

A escala 6×1 era um escárnio. O escárnio maior é imaginar que o Brasil se resolve assim: uma canetada, uma frase de efeito e uma festa a poucos dias da eleição. O trabalhador merece mais do que descanso prometido em cerimônia. Merece uma economia que lhe permita viver com dignidade sem depender eternamente da próxima decisão de Brasília. Enquanto a política tratar necessidade como moeda e direito como propaganda, o cabresto continuará firme. Só trocará de material. E o eleitor continuará sendo chamado de protagonista justamente quando mais interessa aos outros conduzi-lo.

Redação

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