Em 15 de novembro de 1926, o advogado Washington Luís tomou posse como presidente da República em cerimônia realizada no Palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro, então capital federal, condição que manteve até a inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960. A concorrida solenidade contou com a presença de representantes de vários países, que desembarcaram no Porto do Rio de Janeiro após vários dias de viagem. O Arquivo Vivo do jornal O Democrata registra que, entre tantas autoridades, estava um grupo de políticos são-roquenses.

“Acham-se de novo entre nós, de volta do Rio de Janeiro, para onde tinham ido, afim de representar a nossa Câmara Municipal, na posse do emininete Dr. Washington Luís, atual presidente da República, os senhores coronel Euclydes de Oliveira, nosso operoso chefe [político], Dr. Júlio Arantes de Freitas [prefeito de São Roque] e Antonio Zecchi [vereador e subprefeito de Mairinque]. Em palestra com estes senhores tivemos o prazer de presenciar que os mesmos vieram encantados com a magnifica hospedagem que tiveram e da estrondosa manifestação que foi alvo o Dr. Washington Luís”, registro da edição de 21 de novembro de 1926.

Washington Luís tinha grande respeito entre os políticos são-roquenses principalmente pela inauguração da estrada de rodagem que ligava São Paulo a São Roque (atual Rodovia Raposo Tavares), em 26 de agosto de 1922, quando esteve na cidade e foi recepcionado com uma grande festa. Permaneceu por várias horas em São Roque, sendo homenageado com um grande jantar e um baile. Para se ter uma ideia da gratidão do povo são-roquense, o Largo da Matriz passou a se chamar “Praça Dr. Washington Luís”. Registre-se que o lema de Washington Luís era “Governar é abrir estradas”. Como prefeito de São Paulo, construiu mais de 300 quilômetros de estradas e ruas na capital paulista. No governo estadual, foram 1.326 quilômetros de estradas de rodagem, além de investimentos na navegação fluvial nos rios Paraná e Paraíba.

Nascido em Macaé, no Estado do Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1869, Washington Luís Pereira de Sousa formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo e foi nomeado promotor público em Barra Mansa (RJ), mas abriu mão do cargo para se dedicar à advocacia em Batatais (SP), onde ingressou na política. Foi vereador e prefeito de Batatais, deputado estadual, secretário da Justiça, prefeito de São Paulo, presidente do Estado de São Paulo (cargo equivalente ao de governador) e senador. Em 1º de março de 1926, elegeu-se presidente da República com quase 100% dos votos, derrotando o gaúcho Assis Brasil. O Brasil vivia o período da chamada Política do Café com Leite, que marcou as primeiras décadas da República (1889–1930), caracterizada pela predominância política de São Paulo e Minas Gerais e pela alternância de representantes desses estados na Presidência da República. O vice-presidente de Washington Luís era o mineiro Fernando de Melo Viana. Apesar de ter nascido no interior fluminense, Washington Luís construiu sua carreira política em São Paulo e autodenominava-se “paulista de Macaé”.
Em 1926, o voto não era obrigatório nem secreto, facilitando a atuação dos currais eleitorais, dos “coronéis” e dos chefes políticos locais. O eleitorado era formado predominantemente por homens alfabetizados, maiores de 21 anos. A mulher não tinha direito ao voto. O jornal O Democrata registra a votação das eleições presidenciais de 1926 em São Roque: “No dia 1º de março, o exmo. sr. dr. Washington Luís Pereira de Souza obteve nesta cidade 531 votos [100%] para presidente da República, Dr. Fernando de Mello Vianna 531 votos [candidato a vice-presidente] e o dr. Ataliba Leonel 531 votos para deputado federal”. A força dos comandantes políticos locais não abria espaço para outros candidatos a deputado.
Em 1926, o leitor do jornal O Democrata recebia o Suplemento Semanal Ilustrado, que anunciava uma distribuição de 120 mil exemplares em todo o Brasil. Na edição que circulou de 28 de novembro a 5 de dezembro de 1926, o suplemento estampou na primeira página fotografias do novo governo: o presidente Washington Luís, o vice-presidente Fernando de Melo Viana e os sete ministros: almirante Pinto da Luz (Marinha), Victor Konder (Viação e Obras Públicas), general Sezefredo dos Passos (Guerra), Octávio Mangabeira (Relações Exteriores), Lyra Castro (Agricultura), Vianna do Castello (Justiça) e Getúlio Vargas (Fazenda).
Getúlio foi o único que não ficou até o final do governo. Ele deixou o Ministério da Fazenda em 1927 para disputar o governo do Rio Grande do Sul. Eleito presidente daquele estado, permaneceu no cargo até outubro de 1930, quando assumiu a liderança da Revolução de 1930, que derrubou do poder o ex-aliado Washington Luís. Em 24 de outubro de 1930, Washington Luís foi deposto e o Brasil passou a ser comandado provisoriamente por uma junta militar e logo a seguir Getúlio, que permaneu no poder até 1945. Todos os ministros também deixam o Brasil.
Entre os acontecimentos que levaram à revolução estava o rompimento do acordo político com os mineiros, quando Washington Luís apoiou o paulista Júlio Prestes para sua sucessão. Prestes venceu a eleição presidencial, mas não chegou a assumir o cargo. Deposto, Washington Luís seguiu para o exílio, vivendo na Europa e nos Estados Unidos. Retornou ao Brasil em 1947, mas não voltou à vida política, dedicando-se aos estudos históricos, outra paixão que cultivava mesmo durante seus mandatos. Um exemplo desse interesse foi a criação, em 18 de abril de 1923, quando governava São Paulo, do Museu Republicano Convenção de Itu. Faleceu em 4 de agosto de 1957 aos 87 anos.
Em 1º de maio de 1922, Washington Luís inaugurou um trecho da Rodovia São Paulo–Mato Grosso, passando por Barueri, Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Cabreúva e Itu (atual Estrada dos Romeiros). No limite entre Cabreúva e Itu, encontra-se a Gruta da Glória, que também já foi chamada de Gruta Washington Luís. O jornal O Democrata registra essa denominação ao noticiar uma excursão realizada por um grupo de rapazes em 1922. E a nossa Praça da Matriz, por que deixou de ser Praça Washington Luís? Coisas da política. Com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, Washington Luís perdeu influência política. A mudança de nome e o esquecimento da homenagem refletiram os novos tempos da política brasileira.
Vander Luiz


