A forma como a sociedade reage às tragédias diz muito sobre suas prioridades — e sobre suas distorções. Nos últimos meses, o país assistiu a uma explosão de comoção no chamado “caso Orelha”, envolvendo a morte de um cachorro de rua. Houve mobilização nas redes sociais, protestos presenciais, pressão pública, manifestações de artistas e cobertura intensa da imprensa. O assunto dominou rodas de conversa e pautas institucionais.
Neste fim de semana, porém, outra morte brutal veio à tona: a de uma freira idosa, assassinada dentro de um convento. Uma mulher consagrada à vida religiosa, que dedicou seus anos ao serviço e à fé, morta de forma violenta em um espaço que simboliza recolhimento e paz. O fato é gravíssimo sob qualquer perspectiva — humana, moral, social e de segurança pública. Ainda assim, a repercussão foi tímida. Não houve grandes mobilizações, nem ondas de indignação comparáveis, nem a mesma pressão coletiva.
Não se trata de estabelecer uma competição de dores. A violência contra animais é inaceitável e merece repúdio. Maus-tratos devem ser investigados e punidos com rigor. Mas a discrepância na reação social levanta uma reflexão inevitável: o que determina nossa capacidade de indignação?
Vivemos sob a lógica da viralização. A imagem que choca, a narrativa que engaja, o tema que se encaixa em disputas ideológicas tende a ganhar tração. Outros fatos, por mais graves que sejam, desaparecem no ruído da informação fragmentada. A régua da comoção pública parece cada vez menos relacionada à gravidade objetiva do crime e cada vez mais dependente do apelo emocional imediato e da conveniência narrativa.
A morte de uma religiosa dentro de um convento não é um crime comum. Foi atentado contra a vida, contra a liberdade religiosa e contra a própria sensação de segurança em espaços tradicionalmente associados à proteção. O silêncio em torno desse episódio revela algo desconfortável sobre nós.
Alguma coisa muito errada não está certa. E ignorar essa discrepância talvez seja o maior erro de todos.
Redação.

