No Brasil, algumas coisas já nascem com destino certo. Samba-enredo nasce para o Carnaval, promessa eleitoral nasce para evaporar e CPI nasce para terminar em pizza. Ou, como parece ser o caso agora, em algo ainda mais refinado: uma bela CPIZZA, servida quente e rapidamente retirada da mesa antes que alguém faça perguntas demais.
A tão falada investigação sobre as fraudes no INSS, que atingiram justamente quem menos pode se defender — aposentados e pensionistas — caminhava para um daqueles raros momentos em que o país poderia assistir ao teatro completo: convocação de personagens suspeitos, quebra de sigilos, revelações constrangedoras e, quem sabe, um ou outro culpado. Era pedir demais.
O roteiro mudou no meio do caminho. As quebras de sigilo foram sendo desfeitas, a investigação foi perdendo fôlego e, no final, a CPI foi sendo enterrada com a elegância burocrática que Brasília domina como ninguém. Faltou pouco para aparecer alguém com música ambiente e coreografia para celebrar o encerramento da temporada.
Enquanto isso, os aposentados seguem com a parte que lhes coube nesse enredo: o prejuízo. Foram descontos indevidos, associações misteriosas e cobranças que muitos sequer sabiam que existiam. Um golpe silencioso que atingiu exatamente quem trabalhou a vida inteira acreditando que, ao menos na velhice, o sistema serviria para protegê-los.
Mas o sistema tem suas próprias regras de sobrevivência. Quando a investigação começa a caminhar demais, entra em cena o mais eficiente mecanismo institucional brasileiro: o acordo tácito entre poderes. Ninguém chama de acordo, claro. Mas todos parecem compreender perfeitamente como funciona.
No fim, a CPI virou CPIZZA.
E como em toda boa pizza política brasileira, os ingredientes principais desaparecem antes de chegar à mesa do público. Restam apenas as bordas — frias, duras e difíceis de engolir.
Principalmente para quem já foi lesado e agora descobre que, além do dinheiro, também perdeu o direito de saber quem colocou a mão nele.

