É crescente o número de adultos com 40 anos ou mais em busca da alfabetização ou a realização de um sonho profissional ao ingressar em uma faculdade. Por outro lado, toda criança deve ser matriculada na pré-escola a partir dos 4 anos completos até 31 de março do ano da matrícula. O Arquivo Vivo mostra que, há 50 anos, a realidade era bem diferente.

No caso da alfabetização, existia o Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), criado em 1968 e ativo até 1985, quando o governo Sarney criou a Fundação Educar. Uma pessoa mais velha cursando o ensino superior era algo extremamente raro. As crianças não eram obrigadas a frequentar os parquinhos e, na maioria dos casos, ingressavam diretamente no primeiro ano, por decisão dos pais e, principalmente, pela falta de escolas de educação infantil.

Na edição de 27 de dezembro de 1975, o jornal O Democrata registrou a formatura dos bacharéis da Faculdade de Direito de Sorocaba. “Dentre os alunos, destacamos o nome de nossa colaboradora Durcema Judith Villaça Boccato”, esposa de Osmar de Castro Boccato (professor, ex-vereador e diretor de O Democrata). Mãe de três filhos, Antonio, Durval e Maíque (Osmar Henrique), Durcema tornou-se advogada aos 45 anos. “Minha mãe fez a faculdade para me incentivar a seguir o mesmo caminho e conseguiu”, lembra Maíque, atual vice-prefeito de São Roque. Durcema não se limitou aos estudos, passou a exercer a profissão. Também foi inspiração para que sua nora, Sandra, cursasse Jornalismo e Direito.
Algumas semanas depois (edição de 24 de janeiro de 1976), a professora Gema Francisca Mazetto Alonso levantava a questão: “Parques Infantis: são as professoras ‘babás’ de crianças?” E emendava outra pergunta: “O que é que as crianças vão fazer no parque?”

DURCEMA VILLAÇA BOCCATO
A formatura da Faculdade de Direito de Sorocaba contou com missa em ação de graças, colação de grau e baile nos salões do Clube Recreativo (Sorocaba). Para celebrar com os amigos, Durcema mandou celebrar uma missa na Igreja Matriz de São Roque, com a bênção do anel de grau. “No estourar do champanhe e no corte do bolo, Clary de Lima, em nome da Associação das Senhoras de Rotarianos, prestou a Durcema uma significativa homenagem.
“O tempo passou. Anos atrás, naquele solar elegante, havia a placa ‘Dr. Durval Villaça’ [pai de Durcema]. Depois de tanta glória e alegria, ela foi retirada em meio a lágrimas e saudades. Mas hoje, você, Durcema, soube honrar esse nome. E a placa volta ao mesmo lugar: ‘Dra. Durcema Judith Villaça Boccato’. Ela também chegou com as honras da vitória, envolta em flores, lágrimas e sorrisos, na serena beleza daquele lar.”
A cerimônia contou com os formandos da XV Turma “Dr. Rui Junqueira”: Oscar Camargo Costa Filho, João Batista Morais Andrade, José Benedito de Oliveira Souza e Luiz Alves Cardoso, vindos de Sorocaba, Itapetininga e Ibiúna.

GEMA MAZETTO ALONSO
A professora Gema escreveu: “O que mais se ouve é que as crianças vão aos parques infantis para brincar. Essa resposta revela um desconhecimento sobre o trabalho que as professoras desenvolvem ali e sobre as atividades realizadas pelas crianças. Poucos sabem das atividades visuais, que utilizam flanelógrafos (painéis revestidos de flanela para a fixação figuras), lousas, objetos de sala, slides e outros recursos que ajudam a desenvolver a acuidade visual da criança ou a identificar alguma deficiência que ela possa ter.”
Relatou as atividades que desenvolvem a coordenação motora, a linguagem e a sociabilidade com colegas, professores, família e comunidade. “A ‘tia’ muitas vezes substitui a mãe; os colegas, os irmãos. “À medida que o círculo de relações da criança se amplia, ela passa a adquirir normas que a tornam um ser útil e agradável.”
No campo da ciência, a criança adquire hábitos de higiene pessoal e aprende sobre o mundo animal e vegetal. “Damos grande destaque ao desenvolvimento da criatividade: desenhos, pinturas, modelagens, recortes. Os aparelhos recreativos (balanços, carrossel, gangorras e ‘gaiolas’) proporcionam liberdade de movimento e exercícios de equilíbrio.”
“Para que a criança seja educada — e não apenas se divirta —, é fundamental que conte com professoras especializadas em Educação Pré-Primária e Recreação Infantil. Acreditamos que se as crianças não forem amadas, acolhidas e educadas em nossa comunidade, seus talentos serão enterrados e suas personalidades, atrofiadas”, concluiu.
Vander Luiz

