Pioneiro na gravação de “Tico-Tico no Fubá”, maestro Gaó morou em São Roque. Em 1925, O Democrata apresentou o menino compositor de apenas 16 anos – O Democrata

“Do couro sai a correia.” O ditado popular ensina que nada se cria do nada, os resultados dependem dos recursos disponíveis. No jornalismo, não é diferente. O “couro” é a inspiração do texto. Toda semana, quando tenho contato com o centenário arquivo de O Democrata, começa a busca por uma inspiração, principalmente quando ainda não há um tema em mente.

Maestro Gaó veio de uma família de músicos. Jornal O Democrata 17/10/1925

Em 17 de outubro de 1925, na seção de classificados intitulada “Secção Livre”, foi publicado o seguinte anúncio: “Lições de piano, violino e demais instrumentos. Professor A. Gurgel. Rua Ruy Barbosa, 41 – São Roque.” O anúncio não passa despercebido porque, na mesma edição, uma pequena nota liga os fatos: “Tira a mão do guiso. Do distinto moço sr. Odmar Gurgel, muito relacionado no meio musical desta cidade, recebemos uma cópia do samba à carioca de sua autoria com o título acima. Gratos pela oferta.”

Aos 16 anos, Odmar Amaral Gurgel entrega uma música na redação do Jornal O Democrata

O título pode gerar dúvida: guiso (comida cozida, ensopado) ou guizo/chocalho (instrumento musical ou da cobra cascavel)? A identificação do professor também levanta uma questão. O “A.” seria de Amaral, mas trata-se do professor Acylino do Amaral Gurgel ou de seu filho Odmar Amaral Gurgel? O Democrata registra que Odmar era muito relacionado ao meio musical de São Roque, mas o pai e  mãe Joanna eram músicos.

Maestro Gaó nos primeiros anos de carreia

Acylino nasceu em Ibiúna (16 de dezembro de 1886), cursou o primário em São Roque e se formou na Escola Normal de Itapetininga (1905). Começou a lecionar em Piedade, onde organizou banda, orquestra e coro, e casou-se com Joana Sardenberg de Souza Queiroz (1906). Tiveram oito filhos: Walkir, Odmar, Amyr, Ayr, Claphyr, Ibs, Wysb e Dylma. Odmar nasceu em Salto (12 de fevereiro de 1909) e assinava suas composições com as iniciais O.A.G., mas resolveu inverter as letras — e assim ganhou fama como maestro Gaó. Estudou no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e tornou-se um dos principais pianistas e regentes do Brasil, trabalhando vários anos nos Estados Unidos, onde tocou com Carmen Miranda.

Gaó na inauguração do piano do São Paulo Clube (1960) comprado com a sua indicação

Gaó manteve uma profunda ligação com São Roque, como recorda Zé do Nino, hoje com 92 anos. “A família toda morou na Rua Rui Barbosa, no trecho entre a Avenida Tiradentes e a Travessa Xavier. O irmão dele, Claphyr, casou-se com a Cesarina Biazzi. São Roque sempre teve o costume das serenatas. Meus irmãos mais velhos, Nêgo e Odina, contavam que o Gaó saiu tocando piano em cima de um caminhão.”

Primeira gravação de “Tico-tico no Fubá” pela Orquestra Cobraz regida pelo maestro Gaó

Outra lembrança é de 1960, durante a campanha para a compra de um piano para o São Paulo Clube, quando Zé do Nino era o presidente. “Pedimos orientação ao maestro Gaó e ele nos acompanhou em tudo, até a compra na Casa Manon, na Rua 24 de Maio (em São Paulo). Saquei o dinheiro do banco com o Jair Pena, que também era diretor do clube. Ele teve o cuidado de colocar o dinheiro no bolso do meu paletó e ainda prender com um alfinete, para não correr o risco de perder. No dia 23 de março de 1960, nos 30 anos do São Paulo Clube, o maestro Gaó veio para inaugurar o piano.”  O São Paulo Clube uniu-se posteriormente à Sociedade Literária, dando origem ao São Roque Clube, que mantém em sua sede o piano indicado por Gaó.

PRIMEIRO A GRAVAR ‘TICO-TICO NO FUBÁ”

Composta por Zequinha de Abreu em 1917, a primeira gravação de Tico-Tico no Fubá ocorreu somente em 1931, sob a regência de Gaó à frente da Orquestra Colbaz — nome derivado do endereço telegráfico da gravadora Columbia. Graças à iniciativa de Gaó, Tico-Tico no Fubá tornou-se uma das músicas mais conhecidas do Brasil, alcançando sucesso internacional a partir da gravação de Carmen Miranda, quando recebeu letra de Aloysio de Oliveira.

Gaó também trabalhou em várias emissoras de rádio de São Paulo e do Rio de Janeiro, além de fazer sucesso no Cassino da Urca (RJ) e em diversas casas de espetáculos e teatros. Quando retornou dos Estados Unidos (1969), fixou residência em Mogi das Cruzes, cidade natal de sua esposa. Em 1971, lançou o disco A Bandinha da Mônica, em parceria com Maurício de Sousa e Wilma Camargo, compondo músicas para todos os personagens. “Sou a Mônica, sou a Mônica; dentucinha e sabichona; Sou a Mônica, sou a Mônica; tão teimosa e tão mandona.” A criançada também cantou o tema do Cebolinha. “Eu tloco as letlas, não falo bem; Mas meus amigos, não tloco por ninguém.”

O maestro Gaó faleceu aos 83 anos, em 1992. Em Salto, esteve em dezembro de 1988 para inaugurar o auditório que leva seu nome no Conservatório Municipal. Em Mogi das Cruzes, o Teatro de Arena também o homenageia.

Foi aquele mesmo jovem que, aos 16 anos, apareceu na redação de O Democrata para apresentar uma música recém-composta. Talvez, a notícia tenha servido de inspiração para carreira repleta de sucesso.

Vander Luiz

Jornal O Democrata São Roque

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