“Do couro sai a correia.” O ditado popular ensina que nada se cria do nada, os resultados dependem dos recursos disponíveis. No jornalismo, não é diferente. O “couro” é a inspiração do texto. Toda semana, quando tenho contato com o centenário arquivo de O Democrata, começa a busca por uma inspiração, principalmente quando ainda não há um tema em mente.

Em 17 de outubro de 1925, na seção de classificados intitulada “Secção Livre”, foi publicado o seguinte anúncio: “Lições de piano, violino e demais instrumentos. Professor A. Gurgel. Rua Ruy Barbosa, 41 – São Roque.” O anúncio não passa despercebido porque, na mesma edição, uma pequena nota liga os fatos: “Tira a mão do guiso. Do distinto moço sr. Odmar Gurgel, muito relacionado no meio musical desta cidade, recebemos uma cópia do samba à carioca de sua autoria com o título acima. Gratos pela oferta.”

O título pode gerar dúvida: guiso (comida cozida, ensopado) ou guizo/chocalho (instrumento musical ou da cobra cascavel)? A identificação do professor também levanta uma questão. O “A.” seria de Amaral, mas trata-se do professor Acylino do Amaral Gurgel ou de seu filho Odmar Amaral Gurgel? O Democrata registra que Odmar era muito relacionado ao meio musical de São Roque, mas o pai e mãe Joanna eram músicos.

Acylino nasceu em Ibiúna (16 de dezembro de 1886), cursou o primário em São Roque e se formou na Escola Normal de Itapetininga (1905). Começou a lecionar em Piedade, onde organizou banda, orquestra e coro, e casou-se com Joana Sardenberg de Souza Queiroz (1906). Tiveram oito filhos: Walkir, Odmar, Amyr, Ayr, Claphyr, Ibs, Wysb e Dylma. Odmar nasceu em Salto (12 de fevereiro de 1909) e assinava suas composições com as iniciais O.A.G., mas resolveu inverter as letras — e assim ganhou fama como maestro Gaó. Estudou no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e tornou-se um dos principais pianistas e regentes do Brasil, trabalhando vários anos nos Estados Unidos, onde tocou com Carmen Miranda.

Gaó manteve uma profunda ligação com São Roque, como recorda Zé do Nino, hoje com 92 anos. “A família toda morou na Rua Rui Barbosa, no trecho entre a Avenida Tiradentes e a Travessa Xavier. O irmão dele, Claphyr, casou-se com a Cesarina Biazzi. São Roque sempre teve o costume das serenatas. Meus irmãos mais velhos, Nêgo e Odina, contavam que o Gaó saiu tocando piano em cima de um caminhão.”

Outra lembrança é de 1960, durante a campanha para a compra de um piano para o São Paulo Clube, quando Zé do Nino era o presidente. “Pedimos orientação ao maestro Gaó e ele nos acompanhou em tudo, até a compra na Casa Manon, na Rua 24 de Maio (em São Paulo). Saquei o dinheiro do banco com o Jair Pena, que também era diretor do clube. Ele teve o cuidado de colocar o dinheiro no bolso do meu paletó e ainda prender com um alfinete, para não correr o risco de perder. No dia 23 de março de 1960, nos 30 anos do São Paulo Clube, o maestro Gaó veio para inaugurar o piano.” O São Paulo Clube uniu-se posteriormente à Sociedade Literária, dando origem ao São Roque Clube, que mantém em sua sede o piano indicado por Gaó.
PRIMEIRO A GRAVAR ‘TICO-TICO NO FUBÁ”
Composta por Zequinha de Abreu em 1917, a primeira gravação de Tico-Tico no Fubá ocorreu somente em 1931, sob a regência de Gaó à frente da Orquestra Colbaz — nome derivado do endereço telegráfico da gravadora Columbia. Graças à iniciativa de Gaó, Tico-Tico no Fubá tornou-se uma das músicas mais conhecidas do Brasil, alcançando sucesso internacional a partir da gravação de Carmen Miranda, quando recebeu letra de Aloysio de Oliveira.
Gaó também trabalhou em várias emissoras de rádio de São Paulo e do Rio de Janeiro, além de fazer sucesso no Cassino da Urca (RJ) e em diversas casas de espetáculos e teatros. Quando retornou dos Estados Unidos (1969), fixou residência em Mogi das Cruzes, cidade natal de sua esposa. Em 1971, lançou o disco A Bandinha da Mônica, em parceria com Maurício de Sousa e Wilma Camargo, compondo músicas para todos os personagens. “Sou a Mônica, sou a Mônica; dentucinha e sabichona; Sou a Mônica, sou a Mônica; tão teimosa e tão mandona.” A criançada também cantou o tema do Cebolinha. “Eu tloco as letlas, não falo bem; Mas meus amigos, não tloco por ninguém.”
O maestro Gaó faleceu aos 83 anos, em 1992. Em Salto, esteve em dezembro de 1988 para inaugurar o auditório que leva seu nome no Conservatório Municipal. Em Mogi das Cruzes, o Teatro de Arena também o homenageia.
Foi aquele mesmo jovem que, aos 16 anos, apareceu na redação de O Democrata para apresentar uma música recém-composta. Talvez, a notícia tenha servido de inspiração para carreira repleta de sucesso.
Vander Luiz

