O avanço do retrocesso e a hidra acéfala

Três personagens vêm sendo perseguidos como os vilões responsáveis pelo desastre moral e econômico que grassa por essas plagas. São eles: o Bolsominion, o Esquerdopata e o Isentão. Nesse universo simbólico não há escapatória: todos nós estamos inevitavelmente enredados a um deles, pois a vida cotidiana é pontuada por noticiários sombrios reveladores do descontrole administrativo e despreparo intelectual dos Donos do Poder.

Somos a plateia que é escarnecida pelos atores, em uma verdadeira troca de papéis. Nos distraímos com as traquitanas tecnológicas e boletos bancários. Não refletimos que o efeito manada é o que nos impele a acompanhar a marcha da sandice, em detrimento das perguntas que não querem calar: “o que é preciso para viver bem numa sociedade humana? O que as pessoas precisam para estarem felizes e satisfeitas? O que as faz prosperar verdadeiramente?”

O livro Uma Breve História da Economia, de Niall Kishtainy, publicado pela L&PM Editores, entre as indagações de cunho filosófico, ao fazer um apanhado das diversas escolas e eruditos que surgiram ao longo dos séculos, revela que até o presente momento, todas elas e eles, sem exceção, foram e são imperfeitos e propensos a duras críticas. O fato é que não há fórmula mágica.

Esperamos, como os nossos irmãos portugueses, pelo Sebastianismo redivivo, sob nova roupagem. O que era esperança há quase duas décadas, virou poeira na onda dos acontecimentos. Os anseios por novos ares que oxigenassem o ideal republicano trouxeram à tona uma mixórdia que envolve religião, misticismo e obscurantismo. Timothy Snyder em uma pequena monografia “Sobre a Tirania” (Companhia das Letras) é resoluto: “Revolte-se contra o uso traiçoeiro de vocabulário patriótico”. Se sou honesto não preciso urrar que a honestidade é a minha bandeira. É inerente; os atos falarão por si só.

Na medida em que as falhas políticas grotescas com base no pensamento econômico errôneo se acumulam, o desastre é inevitável. O caleidoscópio que se chama Brasil navega na incerteza, cujo horizonte estampado nas manchetes é alarmante: A economia brasileira deve encerrar a década atual com o pior desempenho já registrado em 120 anos”. Precisamos diante do caos evitar a divisão emocional. A quem aproveita a hidra de horrores acima nomeada? Como Shakespeare uma vez advertiu: “A culpa (…) não está em nossas estrelas, mas em nós mesmos, às quais estamos subordinados.” 

Alper Tadeu Alves Pereira nasceu em 1968, no Rio de Janeiro. É advogado e autor do Livro Marte morreu porque os marcianos quiseram, lançado em 2019 pela Chiado Books.