Na terça-feira, o Supremo deu ao Brasil o espetáculo que ele merecia: ministros julgando ministros. Gilmar Mendes olhou para André Mendonça, que ousou levar ao plenário o relatório da PF sobre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, e disparou a frase que resume a Corte: “Até a máfia tem ética.”
Quem segura sozinho a informação que atinge o colega passa a ter “ascendência”. Eu protejo você. 
O país criou expectativa de que juiz ia caçar juiz. Dino pediu vista — até 90 dias. Fachin cancelou sessão e adiou o resto. Toffoli e Nunes Marques se declararam suspeitos. O mérito ficou para o milagre. Milagre que não vem.
Porque o desenho é este: os pares se vigiam, os pares se perdoam, os pares decidem o que é vexame e o que é decência. 
O Senado, que deveria reagir, não fala nada. Ninguém cobra o controle externo. Todo mundo espera que a própria toga faça o trabalho que o Legislativo abandonou. O resultado já está à mesa: pizza fria, sem mussarela, sem dignidade. Só a fatia da impunidade servida com discurso de colegialidade.
Este país acabou no instante em que a última esperança passou a ser a de que um ministro fiscalize o outro. Quando Gilmar invoca a ética da máfia para defender o silêncio em torno de um colega, o recado não é para Mendonça. É para o Brasil.
Não se expõe ministro. Mesmo com filho citado. Mesmo com mensagem. Mesmo com relatório. Ética, no Supremo, é não quebrar a omertà.
Até a máfia tem ética, disse o decano. O Brasil nem isso.
Redação.


