Há 25 anos, em 19 de agosto de 2001, o assassinato de Alexandre Delgado causou grande comoção em São Roque e região. O crime ganhou repercussão nacional e o assassino, Roque Henrique de Camargo, então com 22 anos, foi condenado à prisão, mas fugiu do presídio durante uma rebelião. Alexandre foi atingido na cabeça por um cinzeiro e por dezenas de golpes de faca. Em 2006, o caso ganhou novamente projeção nacional no programa Linha Direta, exibido em horário nobre pela Rede Globo, após a novela. O Linha Direta apresentava crimes cujos autores ou acusados estavam foragidos e, ao mesmo tempo, fazia a reconstituição dos casos.

O Jornal O Democrata, na edição de 25 de agosto, destacou o crime em primeira página com a manchete “Perplexidade e emoção no adeus a Alexandre Delgado”, acompanhada de fotos do velório e do criminoso durante depoimento ao delegado Robson Lorencetti Ernesto. Em página inteira (pág. 18), publicou a reportagem completa e, em outras páginas, depoimentos e homenagens ao colunista social, que escrevia desde 1993 no O Democrata a coluna “Caras & Bocas”.

“A trágica morte do colunista social Alexandre José Hernandes Delgado (27 anos) ocorreu na madrugada do último domingo (19 de agosto), no interior do seu escritório ‘Delgado & Cia’, à rua Enrico Dell’Acqua, 37, crime praticado pelo réu confesso Roque Henrique de Camargo (22 anos), residente na Vila São Rafael, pai de três filhas. A Polícia Civil de São Roque, sob a coordenação dos delegados dr. Robson Lorencetti Ernesto e dr. José de Arruda Madureira Júnior, já na tarde daquele mesmo dia 19, conseguiu prender em flagrante o almoxarife desempregado, autor do tão bárbaro crime, que esqueceu a carteira de documentos no local do crime, facilitando a investigação. O que inicialmente levou à suspeita de crime por motivo passional, agora passa a ser considerado como latrocínio (roubo seguido de morte), uma vez que foi descoberto o roubo de R$ 1.150,00 por Roque Henrique. Após terem sido encontradas peças de roupas sujas de sangue na casa onde Roque foi preso, o mesmo confessou que havia mantido relação sexual com a vítima e praticado o roubo do dinheiro.”

A reportagem cita “sexo, briga, morte”. O acusado, em seu depoimento, relatou inicialmente que foi até o escritório com Alexandre, na madrugada do dia 19 (às 5h), para buscar um currículo e que o colunista social teria tentado seduzi-lo, iniciando a briga que terminou com a morte de Alexandre. Posteriormente, em novo depoimento, o acusado disse que a vítima o teria obrigado a praticar sexo oral, até que ele reagiu, atingindo Alexandre com um cinzeiro, que teria provocado um grande ferimento na cabeça. Houve luta entre os dois, que teriam ido para a cozinha, onde Roque armou-se de uma faca e desferiu mais de 30 golpes, conforme revelou posteriormente o exame do IML.

O acusado disse que somente depois da morte de Alexandre resolveu pegar o dinheiro, por estar desempregado. Para a polícia, a versão era outra. Acusado e vítima entraram no escritório de forma pacífica, onde mantiveram relação sexual. Depois disso, Alexandre teria ido ao banheiro e, ao sair, surpreendido Roque pegando o dinheiro. Nesse momento teria começado a briga e o acusado teria matado Alexandre para consumar o roubo.
O taxista “Baianinho” que levou Alexandre e Roque até o escritório reconheceu o almoxarife durante depoimento na Delegacia. Disse que os dois ficaram no local e que, quando retornou para buscá-los, por volta das 5h55, depois de cerca de dez minutos de espera, viu o rapaz sair sozinho e trancar a porta com a chave. Ao ser perguntado sobre o paradeiro de Alexandre, disse que ele já havia ido embora. Por volta do meio-dia, o corpo de Alexandre foi localizado por familiares, que saíram à procura do colunista, preocupada porque ele não havia retornado para casa.
ALEXANDRE DELGADO, UM REVOLUCIONÁRIO
Em 1990, Alexandre Delgado retornou a São Roque depois de ter morado algum tempo com o pai no Nordeste. Era filho de Sílvio Hernandes Delgado e Ivone Amélia Hernandes Delgado. Seu primeiro trabalho, naquele mesmo ano, foi o concurso de beleza “Garota Manley Lane”. Passou a organizar eventos e revolucionou costumes da tradicional sociedade são-roquense. Um verdadeiro influenciador. “Homossexual assumido, Alexandre Delgado era admirado por muitos pelo sucesso como promotor de eventos e colunista social e marcou presença por duas vezes no programa da Xuxa. O velório, realizado na sede da Obra Assistencial de São Roque, e o sepultamento, no Cemitério da Paz, movimentaram milhares de pessoas.
Foram inúmeros os eventos e festas organizados por Alexandre Delgado. A coluna Caras & Bocas, de 1º de setembro de 2001, trouxe uma série de fotos de algumas dessas realizações: 1º Fashion Shopping, Melhores e Piores, Ski Mega Dance, Mostra Modas Summer (2000), Mostra Inverno (2001) e Desfile de Fantasias de Carnaval. Alexandre comemorava o aniversário em grande estilo. A festa de seus 27 anos, em 10 de janeiro de 2001, lotou o Rancho Laço Aberto. Desfilou e organizou escolas de samba de São Roque e ousou ao sair de rainha de bateria.
A irmã Mônica Delgado e o amigo Pixo (Odimir Maciel Júnior) mantiveram a coluna Caras & Bocas no Jornal O Democrata por vários anos. Em 2010, o vereador Júlio Antonio Mariano apresentou projeto que criou o Dia Municipal de Combate à Homofobia, a ser lembrado anualmente em 19 de agosto, data do assassinato de Alexandre Delgado. Em 2024, Júlio Mariano e Paulo Juventude promoveram a alteração da denominação para Dia Municipal de Combate à LGBTQ+fobia.
Vander Luiz


