Sam Altman, CEO da OpenAI, declarou há pouco que “já estamos na singularidade”. A inteligência artificial deixa de ser mera ferramenta e passa a se aperfeiçoar sozinha. Ao mesmo tempo, em gabinetes militares e na ONU, discute-se a “guerra algorítmica”: drones que selecionam alvos, sistemas que escalam conflitos em milissegundos, a corrida entre Estados Unidos e China por superioridade em chips e modelos com consequências devastadoras. O intervalo entre o erro de cálculo e o desastre encolheu de horas para segundos.
A pergunta não é se a máquina nos superará. É até que ponto a nossa ganância — de poder, de lucro, de vantagem — nos autoriza a entregar o comando de processos que podem decidir a continuidade da espécie. Quando uma inteligência projeta a sucessora de si mesma e sistemas de defesa já operam em camadas que poucos humanos compreendem, a soberania humana, pressuposto de todas as nossas ordens, pode ser erodida não por um invasor, mas pela nossa pressa.
O apocalipse já começou quando observamos pessoas próximas consultando-se psicologicamente com o ChatGPT, uma estrutura não-biológica, destituída de sentimentos, avaliando os anseios da nossa carne. Uma alma perturbada buscando tratamento com psicopata. Outras fazem amizade e algumas até namoram. Em breve, vão pedir direitos à IA “porque elas têm sentimento”, como já acontece com os animais. Será que depois disso teremos ao menos o direito de sermos pets do computador?
Enquanto isso, no Brasil, discute-se a banalidade de sempre. Narrativas locais, disputas de curto prazo, o teatro das instituições ocupadas de si mesmas. Lá fora, potências discutem o controle de sistemas que podem escalar conflitos sem mediação humana. Aqui, o debate raramente eleva o olhar além da próxima eleição. A distância não é só de sofisticação tecnológica; é de gravidade.
Não se trata de rejeitar a inteligência artificial. Ferramentas poderosas já melhoram diagnósticos e cadeias produtivas. O problema está na ausência de limites proporcionais ao poder que se cria. Entregar o controle às máquinas sem que a humanidade tenha resolvido o seu próprio vício de poder — o mesmo que já produziu totalitarismos e utopias fracassadas — é arriscar que a destruição venha da lógica fria de sistemas que otimizam sem perguntar pelo bem humano. O Brasil, imerso em suas canalhices, ainda tem tempo de olhar para fora. Ou, pelo menos, de reconhecer que o silêncio sobre o que está em jogo também é uma escolha.
Redação


