O brasileiro deposita na política uma confiança que não deposita em nenhuma outra atividade humana. Existe a crença de que praticamente todos os problemas do país passam por alguma decisão de governo e que, por consequência, todas as soluções também virão de lá.
A relação é tão curiosa que, nas igrejas, frequentemente se reza para que os governantes tenham sabedoria, discernimento e atitudes cristãs. E faz sentido desejar isso. O que chama a atenção é que raramente fazemos o mesmo pelos médicos que tomam decisões que envolvem vidas, pelos professores responsáveis pela formação das futuras gerações ou pelos empresários que empregam milhares de pessoas. A cobrança moral parece concentrada justamente na classe política.
Talvez porque tenhamos criado a ideia de que a política é responsável por tudo. Quando algo funciona, foi mérito de algum governante. Quando algo dá errado, certamente houve um governante que falhou. É uma visão confortável, porque transfere responsabilidades. O problema é que nem sempre ela corresponde à realidade.
O fechamento da FAC São Roque na última semana é um exemplo disso. A primeira faculdade da cidade encerrou uma trajetória de três décadas e imediatamente surgiram tentativas de encontrar um culpado na política local.
Mas a FAC não fechou porque um vereador votou errado, porque um prefeito deixou de fazer um discurso ou porque faltou uma audiência pública. A instituição foi atingida por uma transformação profunda no ensino superior brasileiro. Grandes grupos educacionais passaram a operar como redes de varejo, multiplicando polos, reduzindo custos e oferecendo cursos cada vez mais baratos. O ensino superior virou um mercado de escala.
O resultado está diante de todos. Nunca houve tantas faculdades, tantos polos e tantas vagas. Ao mesmo tempo, o Brasil continua distante dos países que lideram a produção científica mundial. Formamos mais alunos, mas isso não significa necessariamente formar melhor.
A política tem responsabilidades importantes, mas não pode ser tratada como explicação universal para todos os acontecimentos da vida em sociedade. Empresas prosperam ou fracassam. Instituições crescem ou desaparecem. Pessoas tomam decisões acertadas e decisões equivocadas. Nem tudo passa pelo gabinete de alguém.
O que se espera agora é que os alunos consigam concluir sua formação e que o prédio, tão importante para a história de São Roque, encontre uma nova utilidade. Se puder servir ao poder público e reduzir gastos com aluguéis, melhor ainda.
Por aqui, continuamos acreditando que as maiores transformações acontecem quando as pessoas assumem suas responsabilidades. A política não substitui o trabalho, a iniciativa, a competência e as escolhas de cada um. Os maiores ensinamentos não provém de nenhuma escola.


