Liberdade e responsabilidade – Jornal O Democrata

Toda tragédia desperta uma velha tentação do brasileiro médio que acha que o Estado é o papai. Afora “tem que ter uma lei” ou “isso precisa ser proibido”. Como se cada desgraça humana pudesse ser evitada com mais um artigo no Código, mais uma placa, mais uma regulamentação ou mais uma proibição.

Foto Ilustrativa: Reprodução/Magnific

O Brasil já é um país pródigo em leis. É proibido matar e, nem por isso, deixamos de conviver com uma carnificina diária. É proibido roubar, dirigir embriagado e comercializar drogas. Ainda assim, os crimes acontecem. A lei é necessária, mas não substitui a responsabilidade individual, o bom senso e a consciência moral.

A morte da jovem durante a prática de rope jump na Ponte do Esqueleto, em Limeira, despertou comoção nacional. E com razão. Maior de idade, consciente e senhora de suas escolhas, ela decidiu participar de uma atividade de risco em uma ponte interditada e sinalizada com placas de perigo. Se houve negligência dos organizadores, se protocolos foram ignorados e se houve desrespeito às normas, cabe à Justiça apontar os responsáveis.

Mas, no mesmo dia, um vídeo muito menos comentado mostrava um pai saltando da mesma ponte com o filho de apenas seis anos. E é difícil compreender como tamanha irresponsabilidade não tenha provocado indignação ainda maior.

Adultos têm o direito de assumir riscos. Essa é uma das expressões da liberdade. Cada um é senhor da própria vida e das próprias escolhas, inclusive quando elas envolvem perigo.

Uma pessoa pode decidir escalar montanhas, atravessar oceanos ou se lançar no vazio presa a uma corda. Pode, inclusive, cometer imprudências e arcar com as consequências.

Uma criança de seis anos, porém, não escolhe. Não avalia. Não compreende. Ela confia.

É justamente por isso que a cena daquele menino suspenso no vazio causa espanto. A autoridade dos pais não é uma licença para satisfazer os próprios desejos ou buscar emoções fortes às custas dos filhos. Autoridade é responsabilidade. É proteção. É dever.

Seria um erro transformar essa tragédia em pretexto para proibir os esportes radicais. Se o perigo fosse motivo suficiente para banir atividades humanas, seria necessário acabar com o paraquedismo, o montanhismo, o automobilismo e tantas outras práticas que convivem com riscos desde sempre.

O problema não é o risco. O problema é a irresponsabilidade.

Não é porque algo é perigoso que deve ser proibido. Mas é justamente porque a liberdade é preciosa que ela exige responsabilidade. Sem responsabilidade, a liberdade degenera em arbitrariedade. E, diante da arbitrariedade, surgem as proibições que acabam restringindo a vida de todos.

Os homens livres têm o direito de correr riscos. O que jamais tiveram foi o direito de impor esses riscos aos inocentes.

Essa é a fronteira que separa a liberdade da irresponsabilidade. E ela não começa na lei. Começa na consciência.

Redação.

Jornal O Democrata São Roque

Fundado em 1º de Maio de 1917

odemocrata@odemocrata.com.br
Rua Marechal Deodoro da Fonseca, 04
Centro - São Roque - SP
CEP 18130-070
Copyright 2026 - O Democrata - Todos os direitos reservados | Política de Privacidade
Os textos são produzidos com modelo de linguagem treinado por OpenAI e edição de Rodrigo Boccato.