O custo emocional dos litígios prolongados – O Democrata

Ao longo dos anos, acompanhando processos judiciais como assistente técnica, aprendi que existem aspectos dos conflitos humanos que dificilmente cabem integralmente nos autos. As petições registram fatos, pedidos e argumentos. Os laudos e pareceres apresentam análises técnicas. As decisões enfrentam questões jurídicas relevantes. As pessoas, porém, vivem experiências que nem sempre encontram espaço nas páginas do processo.

Luciana Santos – Psicóloga Jurídica

Quando um processo judicial começa, a expectativa costuma ser a mesma: resolver um problema. Seja em disputas familiares, questões envolvendo crianças e adolescentes ou outros conflitos que demandam a intervenção do Poder Judiciário, existe a esperança de que uma decisão possa trazer respostas, segurança e, em alguma medida, encerramento.

Entretanto, à medida que os meses se transformam em anos, aquilo que inicialmente representava a busca por uma solução pode também se tornar uma importante fonte de desgaste emocional.

Em minha rotina profissional, uma das questões que mais me chama atenção não está necessariamente relacionada ao conflito que deu origem ao processo, mas aos efeitos produzidos pelo tempo de sua tramitação. Enquanto documentos são juntados aos autos, audiências são aguardadas e manifestações são apresentadas, a vida continua acontecendo fora do processo.

Crianças crescem. Relacionamentos se transformam. Recursos financeiros se esgotam. Novos desafios surgem. E o desgaste emocional, muitas vezes silencioso, passa a fazer parte da rotina daqueles que aguardam uma definição para reorganizar suas vidas.

É importante reconhecer que a Justiça possui seu próprio tempo. A busca pela adequada apuração dos fatos, a observância do contraditório, da ampla defesa e das garantias processuais exigem cautela. Esse cuidado é indispensável para a proteção de direitos e para a legitimidade das decisões judiciais.

Entretanto, o tempo da Justiça nem sempre coincide com o tempo das pessoas.

Quem está envolvido em um litígio frequentemente vive em estado permanente de expectativa. Espera pela próxima audiência. Espera pela conclusão de uma avaliação técnica.

Espera pela produção de uma prova. Espera por uma decisão que permita seguir adiante.

Muitas vezes, planos são adiados, mudanças importantes permanecem suspensas e a sensação de incerteza se instala na vida cotidiana. Aos poucos, o processo deixa de ocupar apenas um espaço jurídico e passa a ocupar também um espaço emocional.

Embora os autos registrem petições, pareceres, laudos, decisões e recursos, existe uma dimensão da experiência humana que raramente é documentada. Nem todo custo aparece formalmente no processo.

Não aparecem nos autos as noites mal dormidas, as crises de ansiedade, o sofrimento decorrente da manutenção prolongada dos conflitos, o desgaste dos vínculos familiares ou a exaustão emocional provocada pela espera.

Ao analisar diferentes casos ao longo da minha atuação, percebo que, em muitas situações, o impacto emocional mais significativo não decorre apenas do fato que originou o processo, mas do período em que as pessoas permanecem imersas na disputa. O conflito passa a influenciar decisões profissionais, relações familiares, projetos pessoais e até mesmo a forma como cada indivíduo percebe a si próprio e aos outros.

Essa reflexão torna-se ainda mais relevante quando existem crianças e adolescentes envolvidos.
Para os adultos, o processo costuma ser compreendido como um procedimento necessário para a solução de um conflito. Para as crianças, entretanto, a experiência é vivida de maneira diferente. Elas não acompanham os prazos processuais nem compreendem a complexidade das discussões jurídicas.

Vivenciam, na prática, as mudanças de rotina, as tensões familiares, os afastamentos e as incertezas que podem surgir durante a tramitação de uma demanda.

Dois ou três anos podem representar uma parcela significativa da infância. Enquanto os adultos aguardam uma definição judicial, a criança continua construindo sua história, desenvolvendo suas referências afetivas e formando sua percepção sobre segurança, pertencimento e vínculos familiares.
Talvez por isso seja tão importante ampliar o olhar para além do resultado final do processo.

Frequentemente, a atenção está concentrada na sentença, no acordo ou na decisão que encerrará a demanda. Contudo, os efeitos produzidos durante o percurso também merecem reflexão.

Nem toda decisão judicial é capaz de encerrar um conflito emocional.

Existem sentenças que resolvem questões jurídicas, definem responsabilidades e estabelecem direitos.

Mas existem experiências emocionais que continuam exigindo elaboração mesmo após o encerramento formal do processo. A solução jurídica e a solução emocional nem sempre acontecem ao mesmo tempo.

Nesse contexto, a atuação dos diversos profissionais que integram o sistema de Justiça assume papel fundamental. Magistrados, promotores, advogados, psicólogos, assistentes sociais e demais especialistas atuam diariamente para garantir direitos e contribuir para a adequada condução dos casos. Mais do que buscar soluções jurídicas, existe também o desafio permanente de minimizar danos e preservar, sempre que possível, as condições necessárias para que as pessoas atravessem esses conflitos de forma menos destrutiva.

Falar sobre o custo emocional dos litígios prolongados não significa questionar a importância da Justiça ou ignorar a complexidade dos processos. Significa reconhecer que, por trás de cada número processual, existem histórias humanas em andamento.

Talvez uma das reflexões mais importantes seja justamente esta: enquanto o processo segue seu curso, a vida não fica suspensa.

Pessoas continuam vivendo. Crianças continuam crescendo. Vínculos continuam sendo construídos ou rompidos. O tempo continua produzindo seus efeitos.

Como profissional que acompanha os impactos humanos dos conflitos judicializados, acredito que compreender essa dimensão é essencial. Afinal, para além dos autos, existem pessoas tentando reorganizar suas vidas enquanto aguardam respostas. E, muitas vezes, o verdadeiro desafio não está apenas em decidir quem tem razão, mas em reconhecer os custos emocionais produzidos ao longo do caminho.

Luciana Santos – Psicóloga Jurídica – CRP 06/129816

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