O editorial da Folha de São Paulo, intitulado “Justiça Eleitoral patrocina desinformação sobre pesquisas” (16 de julho de 2026), critica a proposta do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Cássio Nunes Marques, de criar um selo de “acurácia eleitoral” para premiar institutos cujas pesquisas mais se aproximarem do resultado das urnas. O jornal sustenta, corretamente, que pesquisas eleitorais não têm a finalidade de prever o futuro, mas de retratar, com base em métodos estatísticos, a intenção de voto existente no momento da coleta dos dados.
Nesse ponto, a argumentação da Folha é consistente. O periódico aponta que uma pesquisa de opinião é uma fotografia de determinado momento, e não uma previsão do comportamento futuro do eleitor. Entre a realização da pesquisa e o dia da eleição, fatos políticos, debates, escândalos e mudanças de percepção podem alterar significativamente as intenções de voto.
Entretanto, a discussão não pode parar aí. Também é preciso compreender a preocupação manifestada pelo ministro Cássio Nunes Marques. A legislação eleitoral exige que toda pesquisa seja registrada previamente na Justiça Eleitoral, com a apresentação de informações sobre contratante, metodologia, plano amostral, questionário, período de coleta e demais elementos técnicos. O objetivo dessa exigência nunca foi certificar que uma pesquisa está correta ou garantir sua precisão. Seu verdadeiro propósito é permitir que a metodologia seja conhecida e, caso existam indícios de irregularidades, possa ser questionada por candidatos, partidos políticos ou pelo Ministério Público Eleitoral. A obrigatoriedade do registro busca conferir transparência ao processo e reduzir o risco de pesquisas produzidas de forma irresponsável para influenciar o eleitorado.
O problema é que esse mecanismo possui limitações importantes. O registro da metodologia, por si só, não permite auditar a coleta dos dados. A Justiça Eleitoral não acompanha a realização das entrevistas nem dispõe de instrumentos para verificar se os procedimentos metodológicos informados foram efetivamente cumpridos. Em outras palavras, uma metodologia tecnicamente correta registrada no sistema pode dizer muito pouco sobre a qualidade da pesquisa que efetivamente foi realizada.
Foi exatamente isso que se observou nas últimas eleições municipais. Multiplicaram-se pesquisas regularmente registradas na Justiça Eleitoral, todas atendendo formalmente às exigências legais, mas frequentemente apresentando resultados completamente incompatíveis entre si. Em muitos municípios, cada levantamento parecia apontar como favorito justamente o candidato ligado ao contratante da pesquisa. Foi um verdadeiro desbunde estatístico. Institutos diferentes, com metodologias igualmente registradas na Justiça Eleitoral, chegavam a conclusões que dificilmente poderiam ser explicadas apenas pelas margens de erro. O registro da metodologia, portanto, mostrou-se insuficiente para impedir a proliferação de pesquisas sob encomenda.
Assim, a Folha acerta ao afirmar que a Justiça Eleitoral talvez não seja o órgão mais adequado para funcionar como certificadora da qualidade científica das pesquisas ou para estabelecer um ranking de “acertos”. Contudo, o editorial deixa de enfrentar um problema igualmente relevante. Com as devidas vênias ao jornal, alguma medida precisa ser adotada para coibir a proliferação de pesquisas eleitorais produzidas sob encomenda. O sistema atualmente existente, baseado no registro obrigatório da metodologia, não impediu que esse fenômeno se disseminasse. Ao contrário, todas essas pesquisas estavam regularmente registradas na Justiça Eleitoral, o que demonstra que o mero cumprimento dessa exigência formal não foi suficiente para evitar o desbunde estatístico verificado em inúmeras disputas municipais.
O verdadeiro desafio não é premiar institutos que “acertem” o resultado das urnas, mas aperfeiçoar os mecanismos de transparência e fiscalização, especialmente quanto à execução da coleta de dados, sem comprometer a liberdade de pesquisa. A democracia necessita de pesquisas eleitorais sérias, independentes e metodologicamente rigorosas. Ao mesmo tempo, necessita de instrumentos capazes de preservar a confiança da sociedade nesses levantamentos, evitando que a estatística seja utilizada como ferramenta de marketing político disfarçada de ciência.
Francisco Carlos Ribeiro
Centro Paula Souza-Faculdade de Tecnologia de Sorocaba. Foi tesoureiro de duas campanhas políticas no município de Mairinque (1992 candidato José Carlos Pedrina Moreira e 1996 candidata Luzia Celeste Chesine Monfrinato)
Vidal Dias da Mota Junior
Universidade de Sorocaba. Foi Subsecretário de Habitação e Regularização Fundiária de Sorocaba
Flaviano Agostinho de Lima
Centro Paula Souza, Faculdade de Tecnologia de Tatuí. Ex-Secretário Municipal das pastas de Educação e Habitação e candidato a Prefeito de Sorocaba em 2020


