Quando, nas Festas de Agosto, ouvir o badalar dos sinos na procissão de São Roque, lembre-se. A inauguração dos sinos da Igreja Matriz de São Roque, em 25 de janeiro de 1959, transformou-se em um grande acontecimento da comunidade católica, resultado de uma campanha comandada pelos casais de festeiros de 1959 Ireneu José Silveira e Dilecta Maraccini Silveira e Antonio Augusto de Mattos e Rita Helena de Mattos. Na manhã daquele domingo, pontualmente às 10 horas, a Praça da Matriz estava lotada para que os fiéis acompanhassem a consagração dos novos sinos.

Foi mais uma etapa da construção da Igreja Matriz, iniciada em 1934, tendo à frente Monsenhor Silvestre Murari, depois da ideia lançada pelo padre Cícero Revoredo, em 1929. Em 3 de abril de 1937, ocorreu a entrega parcial da obra. O lançamento da pedra fundamental da fachada aconteceu em 19 de março de 1939. Na véspera do Natal de 1940, foi inaugurado o relógio de quatro faces. Em 1954, ocorreu a pintura do altar principal, trabalho dos irmãos Pedro e Ulderico Gentilli, e, em 1956, a conclusão da pintura artística.
O Jornal O Democrata tem várias publicações destacando a campanha dos sinos, com dezenas de colaboradores que contribuíram com quantias em dinheiro. Algumas pessoas ficaram no anonimato sendo citadas como devotos de São Roque. A maior parte foi feita em nome de famílias, de filhos, em memória de parentes falecidos e estabelecimentos comerciais.

O carrilhão da Igreja Matriz de São Roque é formado por três sinos que pesam, ao todo, 1.200 quilos, como citou Telmo Vieira em artigo publicado na edição de 24 de janeiro de 1959. Nessa mesma edição, acima do título do jornal, aparece a manchete “Sagração dos novos sinos” e a reprodução do convite assinado pelo pároco Luciano Túlio Grilli e pelos festeiros, encaminhado a Heitor Rino Boccato, diretor-gerente do jornal. O documento confirma a presença do bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, Dom Vicente Marchetti Zioni, e cita os paraninfos: Sino São Roque (Antonio Augusto e Rita, festeiros de São Roque); Sino Divino Espírito Santo (Ireneu e Dilecta, festeiros do Divino); e Sino Nossa Senhora Aparecida (prefeito Lívio Tagliasacchi e esposa). Naquele período, a festa do Divino Espírito Santo era realizada no dia 15 de agosto, daí sua realização em conjunto com as comemorações do padroeiro.
O texto de Telmo Vieira traz detalhes históricos da utilização dos sinos pela Igreja Católica e de todo o ritual de como seria realizada a consagração. Segundo o artigo, no ano 313 da Era Cristã, com a liberdade concedida à Igreja, foi permitido o livre uso de instrumentos sonoros para a convocação dos fiéis. De início, os sinos eram suspensos em galhos de árvores. Posteriormente, passaram a ser içados em campanários [torres ou estruturas destinadas a abrigar sinos], construídos ao lado das igrejas e, finalmente, em torres erguidas junto ao próprio templo. Durante muitos anos, os sinos foram confeccionados pelos monges nos mosteiros. Aos poucos, porém, os leigos passaram a fabricar comercialmente sinos e carrilhões. No século XII, generalizou-se o costume de fazer inscrições nos sinos, preferencialmente em latim.

Telmo Vieira também apresentou informações sobre o tamanho e o peso de grandes sinos espalhados pelo mundo e pelo Brasil. Entre os exemplos brasileiros, destacou o carrilhão da Catedral da Sé (São Paulo), mencionando o peso de 19.832 quilos. A Catedral da Sé possui um conjunto de 61 sinos, instalado em suas torres. O artigo também falou da Igreja de São Geraldo das Perdizes, que, em 1882, anunciou a Independência do Brasil, além dos notáveis sinos do Mosteiro de São Bento, do carrilhão de Vila Formosa e do Santuário de Aparecida.
“Bimbalham-se os sinos geralmente nas seguintes ocasiões: antes das missas e ofícios litúrgicos; em certas partes da missa em dias mais solenes, como no Glória; quando se leva o Santíssimo Sacramento aos doentes; no toque do Angelus (oração mariana), três vezes ao dia; na saída e entrada das procissões; na bênção do Santíssimo; nas vésperas das grandes solenidades; nos funerais que, quando são de crianças, o repique deve ser festivo; por ocasião da passagem ou da chegada ao lugar do bispo, superior ou príncipe.”
A sagração dos sinos é uma cerimônia rara e de alta expressão espiritual, equivalendo quase a um batismo dos sinos, tendo inclusive seus padrinhos ou paraninfos. Nenhum sino pode ser içado ao alto das torres ou campanários sem que antes tenha sido abençoado ou sagrado. Ocorre a bênção da água utilizada para a lavagem externa e interna dos sinos, que depois são enxugados pelos auxiliares com toalhas de linho. Em seguida, são recitados cinco salmos, e o bispo traça uma cruz com o óleo dos enfermos e recita uma oração e um salmo. Depois, são traçadas mais sete cruzes com o óleo dos enfermos e quatro com o óleo do crisma.
Após mais uma oração, coloca-se incenso nas caçoilas [recipientes para brasas e incenso], que ficam sob os sinos para que sejam aromatizados enquanto se canta um salmo. Na parte final da cerimônia, o bispo traça o sinal da cruz sobre os sinos e sobre os presentes. Os paraninfos, então, batem nos sinos com um martelinho de madeira e os acionam pela primeira vez.
Na semana seguinte, O Democrata publicou uma grande reportagem e três fotos mostrando a intensa movimentação na Praça da Matriz e registrando a participação do professor Rubens Francisco Salles Boccato, que discursou dando as boas-vindas às autoridades religiosas. Era a conclusão da Campanha dos Sinos, que deixava uma mensagem aos colaboradores: “o bronze do sino perpetuará seu nome de benfeitor”.
Vander Luiz


