Sorocaba e sua região: ricos no PIB, pobres em oportunidades – Jornal O Democrata

Os dados do IPS Brasil 2026 revelam que os 27 municípios da Região Metropolitana de Sorocaba avançaram em condições básicas de vida, mas ainda deixam para trás milhões de cidadãos quando o assunto é garantia de direitos e acesso a oportunidades reais.

Vidal Dias da Mota Junior, Franciso Carlos Ribeiro e Flaviano Agostinho de Lima

Existe uma pergunta que todo prefeito, vereador e gestor público da região de Sorocaba deveria ser obrigado a responder antes de qualquer discurso sobre desenvolvimento: em qual posição seu município está no ranking de progresso social do estado de São Paulo? Se a resposta vier acompanhada de um silêncio constrangido, é porque os dados do IPS Brasil 2026 não deixam muito espaço para comemoração.

O Índice de Progresso Social mede o que o PIB nunca mediu: a qualidade real da vida das pessoas. Não o dinheiro que circula, mas o saneamento que chega nas casas, a segurança nas ruas, a escola que retém o aluno, o direito que se efetiva. E quando aplicamos essa lente aos 27 municípios da Região Metropolitana de Sorocaba, o retrato é revelador, tanto nos avanços quanto nas omissões.

Araçariguama tem o maior PIB per capita da região, R$ 216 mil por habitante. Seu IPS é de 63 pontos. Piedade, com apenas R$ 33 mil per capita, tem IPS de 58. A riqueza, sozinha, não constrói progresso social.

A região tem muito a celebrar. A maioria dos municípios avançou na cobertura de moradia digna: 22 dos 27 pontuam acima de 80 em habitação. O acesso à escola básica melhorou em praticamente toda a região. Cerquilho, Votorantim, Tatuí, Boituva e Sorocaba formam um grupo que se aproxima de padrões razoáveis de bem-estar. Jumirim, o menor município da região com apenas 3.100 habitantes, surpreende ao ocupar a 38° posição entre os 645 municípios paulistas avaliados, um feito que merece atenção e estudo.

Mas os números também mostram, com a frieza que só os dados conseguem ter, o que ficou para trás.

O BURACO QUE O CRESCIMENTO NÃO TAPOU

Ibiúna têm menos da metade da pontuação possível em saneamento básico: 49 pontos cada uma, numa escala de 100. Piedade está na 642° posição estadual, entre os últimos três municípios de São Paulo em progresso social geral. São Roque e Mairinque, com populações superiores a 50 mil habitantes e economias relativamente ativas, integram o grupo de pior desempenho da região.

Esses números não são abstrações acadêmicas. Eles representam famílias que bebem água sem tratamento adequado, crianças que crescem sem esgoto canalizado, bairros onde a expansão urbana aconteceu sem que a infraestrutura acompanhasse. O crescimento chegou antes das condições básicas de vida.

E há um padrão contraditório que merece reflexão pública: Araçariguama tem o maior PIB per capita da região, R$ 216 mil por habitante, resultado da concentração de atividade industrial no município. Alumínio vem logo atrás, com R$ 195 mil. Ambos, no entanto, figuram entre os municípios de médio-baixo progresso social, com IPS abaixo de 64 pontos. A riqueza gerada não se converteu em qualidade de vida para a maioria da população local.

O DEFICIT QUE TODOS COMPARTILHAM

Se existe um denominador comum a todos os 27 municípios, ele está na dimensão Oportunidades, que mede direitos individuais, liberdades, inclusão social e acesso à educação superior. A média regional é de apenas 44,5 pontos, menos da metade do máximo possível. Nenhum município da região ultrapassa 53 pontos nessa dimensão.

O componente mais crítico é o de Direitos Individuais, que avalia o acesso a programas de direitos humanos, a existência de ações para minorias e a eficiência do sistema de justiça. Sorocaba, o maior e mais desenvolvido município da região, pontua apenas 22,67. Itu marca 19,20. Alumínio, 19,57. São números que deveriam constar em todos os planos plurianuais, em todos os debates de câmara municipal, em todas as prestações de contas de secretaria.

Esses dados dizem, em linguagem direta, que a população da Região Metropolitana de Sorocaba não tem acesso pleno a direitos que já deveriam ser garantidos. Não é uma questão de falta de lei: é uma questão de falta de efetivação.

Sorocaba pontua 22,67 em Direitos Individuais. Itu, 19,20. Alumínio, 19,57. São números que deveriam constar em todos os planos plurianuais e em todas as prestações de contas públicas.

PEQUENOS MUNICÍPIOS, GRANDES LIÇÕES

Os dados também trazem surpresas positivas que merecem ser contadas. Jumirim, Sarapuí, Cesário Lange formam um grupo incomum: municípios pequenos, com PIB per capita modesto, que apresentam os melhores índices de inclusão social e oportunidades de toda a região metropolitana.

O que esses municípios fazem diferente? Estes tem alguma política pública consistente e que pode ser chamada de Política de Estado, ou foram meros dados conjunturais que as favorecera? Essas são perguntas que merecem investigação séria por parte de pesquisadores, gestores e das próprias prefeituras vizinhas. Em gestão pública, os bons exemplos são tão importantes quanto os diagnósticos de fracasso. Quando um município pequeno supera municípios ricos e populosos em coesão social, algo estrutural pode estar acontecendo ali, e vale a pena entender.

O QUE OS DADOS EXIGEM DE NÓS

O IPS não é apenas um ranking para enfeitar relatórios ou justificar discursos de campanha. É um instrumento de responsabilização pública. Quando um município sabe que está na 626° posição entre 645 em progresso social, como é o caso de Ibiúna, isso precisa gerar constrangimento institucional, pressão social e mudança de prioridades orçamentárias.

A Região Metropolitana de Sorocaba tem uma estrutura de governança que inclui instâncias colegiadas e mecanismos de planejamento regional. O IPS 2026 deveria entrar formalmente nessa agenda: como referência para a alocação de recursos, como critério de priorização de investimentos estaduais e federais e como pauta permanente dos conselhos e câmaras municipais.

Não faltam problemas a enfrentar. Falta saneamento em Ibiúna e Faltam direitos efetivos em Sorocaba e Itu. Falta converter a riqueza industrial de Araçariguama e Alumínio em bem-estar para quem vive nesses municípios. Falta expandir o acesso ao ensino superior em toda a região, onde nenhum município ultrapassa 65 pontos nesse componente.

Os dados estão na mesa. A pergunta agora é política: quem vai assumir a responsabilidade de agir?

Os dados utilizados neste artigo são provenientes do IPS Brasil 2026, que avalia 5.570 municípios brasileiros em 12 componentes distribuídos em três dimensões: Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos do Bem-estar e Oportunidades. A Região Metropolitana de Sorocaba é composta por 27 municípios, conforme Lei Complementar Estadual n. 1.241/2014.

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