Tatamanha, Tataminha e a Aranha do Odilon – O Democrata

O companheiro da minha amiga usa chapéu à Indiana Jones e posa com a aranha listrada, enorme e colorida, que quase lhe tapa o dorso da mão. No tempo do mito, a ancestral dela, a aranha tatamanha, ajudou Capei, a Lua, na hora de subir pro céu. Em verdade, em verdade, o rapsodo das frases e casos do Macunaíma, herói de nossa gente, assim cantou, nas páginas do Mário de Andrade. E ele, Mário, como Turista Aprendiz e cronista, num hotel do Nordeste, em 1929, uma dessas aranhas em seu delírio conquistou.

A imagem, que eu vislumbro, é a aranha voluptuosa, feminina, atraindo o viajante assustado, encrustada na parede.

Tataminha, a aranha achatada, pouco menor que uma tampinha de garrafa antiga de guaraná, instalou-se quietinha, no forro deste meu escritório, entre os dois focos de luz.

Leiga no assunto, imagino que é armadeira e soe-lhe saltar se lhe dá na telha. Sei do perigo, como todos os que já viram gente lesada chegando ao Butantã. Aqui, penso eu, contentou-se com a pradaria fácil de mosquitos e libélulas, adejando enquanto eu trabalho. Lançou um fio tímido. Não desceu durante o dia e, ontem à tarde, foi de vasculho para o quintal das árvores. Hoje, 11 da noite, está aqui, quietinha. Amanhã vou transferi-la para a casa abandonada no fim da rua, com a garantia de caça fácil. O vento não vai fustigá-la.

Jorge Coli, velho amigo e leitor das minhas croniquetas, envia-me a fotografia da aranha do Odilon Redon (1840-1916), sinistra, acolhida em 1884, no sofisticado castelo art nouveau onde se enfastia Des Esseintes, o protagonista do romance Às avessas de Joris Karl Huysmans (1848-1907) :

“Estes [quadros] estavam assinados Odilon Redon.

“Encerravam, em suas molduras de pereira bruta debruada de ouro, inconcebíveis aparições: uma cabeça de estilo merovíngio pousada sobre uma taça; um homem barbudo, com ares a um só tempo de bonzo e de orador de comício, tocando com o dedo uma colossal bala de canhão; uma aranha assustadora que alojava no meio do corpo uma face humana; certos desenhos a carvão iam ainda mais longe no pavor do sonho atormentado pela congestão.”1.

Patas discretas fundidas à escuridão, pronta pra se enrustir nas encruzilhadas do bas-fond na ficção futura de Georges Simenon. É a única que eu posso lhe mostrar, leitor, documentada, não descrita de longe. Vá visitá-la no Quai d’Orsay, encimando a legenda que reforça, sádica, a apreciação de Huysmans – A aranha sorridente. De quebra, você terá a tristíssima aranha humana que não interessou o romancista.

Telê Ancona Lopez
Professora emérita do IEB-USP, crítica literária e pesquisadora do modernismo brasileiro, com destaque para os estudos sobre Mário de Andrade. Cronista bissexta, alia rigor, sensibilidade e compromisso com a educação.

1HUYSMANS, Joris-Karl. Às avessas. Tradução de José Paulo Paes. Introdução e notas de Patrick Mcguinness. São Paulo: Penguin/ Companhia das Letras, 2011, p. 129; capítulo V.

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