Valei-me, Nossa Senhora – Jornal O Democrata

Valei-me, Nossa Senhora! Chegamos ao fim de mais uma campanha eleitoral e, quando parecia que já tínhamos visto de tudo, conseguiram colocar Nossa Senhora Aparecida no meio da guerra política. Circulou durante a semana a velha história de que um eventual governo poderia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. A história, porém, ressuscitou das redes sociais exatamente como era: sem novidade, sem projeto novo e sem qualquer fato que sustentasse a afirmação.

O tal projeto existe. Mas é de 2007. Foi apresentado há quase duas décadas, tramitou na Câmara dos Deputados, foi rejeitado e acabou definitivamente arquivado em agosto de 2008. Não está em discussão, não está esperando votação e não apareceu agora, às vésperas de uma eleição, como projeto novo. O que apareceu agora foi a velha prática de desenterrar uma informação verdadeira pela metade para fabricar uma mentira inteira.

E há uma confusão ainda maior nessa história. O título de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira principal do Brasil foi concedido pelo papa Pio XI, em decreto de 16 de julho de 1930, a pedido dos bispos brasileiros. É uma questão da própria Igreja, de sua tradição e de sua autoridade religiosa. O Estado brasileiro pode legislar sobre aquilo que pertence à esfera civil — como, por exemplo, o feriado nacional de 12 de outubro —, mas não tem competência para entrar na autoridade espiritual da Igreja e simplesmente destituir uma padroeira.

O mais triste é que a mentira ganhou pernas, atravessou as redes sociais, entrou no debate político e chegou até instituições que deveriam estar ocupadas com assuntos muito mais concretos. E alguns representantes religiosos também acabaram entrando numa disputa que não deveria transformar a fé em instrumento de campanha. Religião é coisa séria demais para ser reduzida a argumento eleitoral. Nossa Senhora Aparecida não é cabo eleitoral de ninguém, assim como nenhuma outra crença ou símbolo religioso deveria ser.

Talvez este seja o retrato mais acabado de uma campanha que, em vez de discutir o futuro do país, passou boa parte do tempo discutindo boatos, fantasias, ataques pessoais e episódios ressuscitados das profundezas da internet. Enquanto isso, os problemas reais continuam esperando respostas. Saúde, segurança, educação, emprego, impostos, economia e infraestrutura continuam existindo independentemente do que esteja viralizando nas redes sociais.

Neste domingo termina o primeiro turno. Que termine também, ao menos por algum tempo, essa eleição de versões, invenções e meias-verdades. Nossa Senhora Aparecida merece respeito. Os brasileiros, também. E a democracia merece uma coisa ainda mais simples: que a verdade não seja a primeira vítima de cada eleição.

Redação.

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